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Cantinho das saudades

Nesta página, pretendo prestar homenagem a meu Pai Professor do Ensino Liceal, Poeta, Dramaturgo (escreveu duas peças de Teatro dedicadas a Gondomar onde viveu alguns anos) e amante de
Fotografia . Nunca publicou as suas obras. No entanto, deixou um livro de poemas (do qual fez cópias à máquina) que foi compilando ao longo da sua vida, à Família e amigos mais intímos.Serão alguns desses poemas que irei partilhando com os meus amigos.O título dessa colectânea escolhi-o para o meu blogue.

SORRISOS DA PRIMAVERA

bendita sejas tu ó primavera,
Com teu Abril dos lírios e lilases;
Bendita sejas tu porque nos trazes
Verdes promessas nas folhinhas d'hera;

Bendita sejas tu por quem espera
Por um milagre em tantos que nos fazes:
Do frio Inverno o gelo tu desfazes
Trazendo à Vida o que a dormir 'stivera;

Bendita sejas com teu ar mais lindo,                                  
Com rosas e jasmins ao Sol abrindo
E rouxinóis cantando em horas calmas;

Bendita sejas com as tuas fontes,
Com as giestas enfeitando os montes,
Com a Alegria em flor em nossas almas.

A. Moreira


Quadras soltas

Teus olhos são fogueirinhas
onde habitam meus desejos.
Logo ao vir das Fontainhas
Hei-de apagá-los com beijos.

Lindo cravo a tua boca,
Ai quem me dera colher
E com alegria louca
Sempre na minha trazer.

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Barquinhada minha Vida
A navegar entre escolhos
Leva ao alto a vela erguida                          
Tem por faróis os teus olhos.

Barquinha do meu Amor
Está o céu tão escuro
Sou tão mau navegador
Não vejo um porto seguro.

Barquinha dos meus desejos
Tão veloz de vento em pôpa
Vai à pesca dos teus Beijos
No mar da tua boca.

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O primeiro


No extenso rol dos teus admiradores
Com presunção eu quis ser o primeiro,
Porem ficou meu nome no tinteiro
Por nada merecer dos teus favores.

Entre fingidos, triviais amores,
Podes percorrer o rol inteiro
Não tens nenhum leal e verdadeiro
Nenhum que não te cause dissabores.

Se eu hei-de figurar num rol assim
Escreve então meu nome lá no fim
Como o que menos podes estimar

Talvez, ao menos uma vez por ano
Por um capricho teu ou por engano
Ponhas o rol de pernas para o ar.

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Tentação

Tem tanta graça teu meigo sorriso
Tem teu olhar tão grande sedução
Que por ti se perdeu meu coração
Por ti se vai perdendo o meu juízo.

Para me render a ti que é mais preciso
Ó viva flor de carne, ó tentação!!
Eva não foi, e seduziu Adão,
Tão bela como tu no Paraíso.

Em meu caminho, qual ridente Aurora
Tu me seduziste e já não posso agora
Viver sem teu amor, sem tua luz.

Dá-me a provar o fruto proíbido
Embora por castigo merecido
Se tornem os teus braços, minha cruz.

Quadras soltas

As almas nascem aos pares:
A tua é gémia da minha;
Quando tu a encontrares
Não a deixes mais sozinha.

Julgas-me pobre e não sou;
Sou rico de Amor, bem rico;
Quanto mais amor te dou
Com mais amor inda fico.

As cartas que tu me escreves
São pequeninas e não:
Pequenas porque são breves,
Mas enchem-me o coração.

Mais...

A Vida

A Vida é tenra flor que pouco dura,
É água a deslizar pela vertente;
Sombra, que foge com o sol poente,
A vida é ténue luz em noite escura.

A Vida é pirilampo que fulgura
De noite e que se acende ao sol nascente;
Um ai correndo o espaço velozmente,
A Vida é voo de ave a pouca altura.

A Vida é lâmpada que um sopro apaga;
Foge como o perfume que embriaga;
Hálito de rebanho em ar algente,

Relâmpago que brilha e logo finda
A Vida é onda, toda espuma, linda,
E que na praia se desfaz gemente.





Sofrer de Amor


Tu sabes muito bem quanto padeço
Quando a teus pés me posto ajoelhado
E eu vejo,com desdém ser desprezado
O amor sem medida que te ofereço.                     

Sofrimento tão grande eu não conheço
Como é amar alguém sem ser amado
Ver um sincero amor posto de lado
Qual falsa jóia do mais baixo preço.

Tu podes rir de mim, bem sei que ris,
Julgas-te assim na vida mais feliz
Que no Amor deixares te prender.

Ris-te de mim então, mas não te gabes
Que vou morrer por ti, pois tu nem sabes
Que sofro por ter gosto de sofrer.

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SONETO DE CAMÕES


Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
e se torna, não tornam as idades.
Razão é já, ó anos!, que vos vades,
porque estes tão ligeiros que passais,
nem todos para um gosto são iguais,
nem sempre são conformes as vontades.
Aquilo a que já quis é tão mudado
que quase é outra causa: porque os dias
têm o primeiro gosto já danado.
Esperanças de novas alegrias
não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
que do contentamento são espias

Nos meus 80 anos..

                 O TEU RETRATO

O teu retrato, aquele que me deste,
Em frente a mim, na mesa em que estudo
Olha-me atento, fala-me de tudo
O que baixinho um dia me disseste.

Prende-me tanto o seu olhar celeste
Que julgo que és tu mesma e  te saúdo
Ficando a contemplar-te absorto e mudo
Na intensa luz astral que te reveste.

E, quando chega a hora de dormir,
O tomo nos meus braços pra me despedir
E com ternura um beijo lhe deponho,

Então nem sei se já estou dormindo
Sob o domínio daquele Anjo lindo,
Visão, retrato, realidade ou sonho?

Augusto ( sem data)

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                  SERENATA DA SAUDADE

                                     I

Quem vive só de Saudade
Dum Amor, que está distante,
Seu coração em verdade
Está doente a cada instante.

                                 II

Não há tormento maior
Que ter um amor ausente;
Disto, me disse um doutor,
É que morre muita gente.

                               III

Saudades são gotas de água
Que caem do céu tombando,
São pranto da minha mágoa
Por minhas faces rolando.

                           IV

e soubesses quantos ais
Suspiro se não te vejo!...
Mas assim amo-te mais
Muito mais eu te desejo.

Outubro
1927

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        A NOSSA PRAIA

Ainda agora, à tarde, ao Sol-poente,
Quando a Saudade acorda no meu peito
Meu coração que a ti está sujeito
Chama por ti, em vão, instantemente.

Para enganá-lo, então, pobre inocente,
(Eu quero vê-lo sempre satisfeito)
Vou-lhe falando em ti a teu respeito
A recordar-lhe o teu Amor ingente.

E levo-o a passear como um menino
Cheio de mimo, que por tudo chora
À nossa praia que é a do Bom-Destino.

E passo a tarde à água indo deitando
Barquinhos de papel pla barra fora
Com beijos e saudades que te mando.

Setembro 1927 (Paredes)


PÔR DO SOL EM MIRAMAR (2010)